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Segunda, 11 Agosto 2025 01:12

Leão XIV: O Novo Pontífice da Realidade e o Jovem Papa Americano da Ficção

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A eleição de Robert Francis Prevost como Papa Leão XIV — há exatos 100 dias — marca um momento singular na história da Igreja Católica. Nascido em Chicago, nos Estados Unidos, e até recentemente Prefeito do Dicastério para os Bispos, Prevost se torna o primeiro Papa norte-americano da história — um símbolo da universalidade e descentralização cada vez mais evidentes no catolicismo contemporâneo. Sua ascensão à Cátedra de Pedro acontece em um momento de intensas transformações culturais e políticas no mundo, exigindo da Igreja respostas espirituais e práticas igualmente ousadas. Nesse cenário, é impossível não lembrar da série The Young Pope (2016), de Paolo Sorrentino, protagonizada por Jude Law como Pio XIII — um jovem, carismático e profundamente enigmático pontífice que abalou as estruturas de um Vaticano ficcional.

Se Leão XIV não é exatamente jovem como o personagem vivido por Law — Prevost tem 69 anos — há ecos curiosos entre ficção e realidade. Assim como Pio XIII, Leão XIV é um Papa inesperado. Embora seu nome reverberasse em círculos internos da Cúria, sua escolha foi recebida com surpresa, especialmente por seu perfil mais reservado; e por não ter sido considerado um dos favoritos entre os “Papabili”(cardeais que são considerados candidatos prováveis para se tornarem Papa). A comparação com The Young Pope se intensifica no simbolismo: em ambos os casos, a eleição de um Papa fora dos centros tradicionais — como a Europa ocidental, especialmente Itália — sugere um rompimento com expectativas e uma busca por renovação ou reconfiguração.

Enquanto Pio XIII opta por um papado secreto e conservador, desafiando a mídia e os cardeais com atitudes imprevisíveis, Leão XIV tem sinalizado uma linha de continuidade com Francisco, embora com traços mais silenciosos. Diferente do personagem de Law, que encarna uma espécie de misticismo radical, Prevost é um homem de governo, formado pelos agostinianos, missionário no Peru, e conhecido por sua escuta pastoral. Contudo, sua formação nos EUA — país que sempre manteve relação ambígua com o papado — imprime à sua figura um inegável traço de singularidade e até de tensão com as tradições europeias da Cúria.

Ambos, Pio XIII (do seriado) e Leão XIV, compartilham uma aura de transição. No caso da ficção, o jovem Papa representa a ruptura com a modernidade líquida; na realidade, Leão XIV pode vir a ser o articulador de um novo equilíbrio entre tradição e abertura — especialmente diante dos desafios colocados por temas como o papel das mulheres na Igreja, a acolhida a pessoas LGBTQIAP+, e o enfrentamento dos escândalos de abusos. Assim como na série, a figura do Papa se revela mais complexa do que o rótulo de conservador ou progressista permite.

Leão XIV, o Papa real, traz consigo a esperança de um catolicismo que dialoga com a diversidade cultural e social do século XXI sem perder sua identidade espiritual. Se The Young Pope dramatizou os conflitos internos da Igreja com um brilho estético e filosófico único, a realidade de Leão XIV pode provar que, mesmo sem os exageros da ficção, o papado ainda é um palco de mistério, poder e transformação.

Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque

Última modificação em Quinta, 14 Agosto 2025 01:16
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